30 janeiro, 2007

Flashs literários

Segue abaixo algumas fotos da primeira Semana Literária em Suzano, que ocorreu em dezembro de 2005, com o apoio da Associação Cultural Literatura no Brasil.

fotos: Sacolinha
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O escritor Luiz Alberto Mendes...

palestrando

O poeta Sergio Vaz...

mostrando seu livro

Mesa de exposição das obras

Alguns autores de Suzano

29 janeiro, 2007

Blog

Acesse o blog do escritor Sacolinha:

Pra rir

O amigo!
(Paulo Pereira)

Domingo de manhã João levanta com o barulho do telefone tocando.
- Quem será a esta hora?
- Alô quem é?
- Aqui é dona Joana mãe do Mário.
- Falando no Mário onde ele está? Nós combinamos em sair, mas ele não apareceu dona Joana.
- João você poderia vir aqui em casa para nos conversarmos?
- Tudo bem dona Joana vou tomar meu café e já estou indo.
O que será que dona Joana quer, será que aconteceu alguma coisa com Mário?
Chegando na casa de dona Joana ela me falou:
- João senta, tenho uma coisa muito séria para te falar, Mario fugiu de casa.
- Mas por que que ele fugiu dona Joana?
- Mario disse que tinha uma coisa para contar que deixaria eu e seu pai Sebastião muito triste. Mario foi direto ao assunto João, e falou: mãe e pai, sou gay, há muito tempo eu sinto atração por meu sexo oposto tive algumas namoradas, mas meu negócio é homem.
- Sebastião quase morreu, colocou a mão no coração e falou: a gente cria um filho com tanto carinho, ele nos chama para conversar, fico pensando que vai dizer: vou me casar, engravidei uma menina, mas não, diz que é gay. Que mal fiz para merecer isto?
- Não, não acredito nisso dona Joana eu e Mário crescemos juntos, brincávamos na escola tínhamos uma brincadeira, você conhece o Mário aquele que te pegou de trás do armário, jogávamos bolinha de gude, empinava pipa e tomávamos banho de cachoeira como que isso aconteceu com meu melhor amigo? Tchau dona Joana não sei o que dizer para a senhora, vou procurar o Mario.
João sai de cabeça baixa pelas ruas, e pensando, Mario por que você fez isso comigo, não entendo, vou sentar neste banco da praça e pensar um pouco.
As horas se passam, João pensativo sente uma mão a tocar em seu ombro, tomou um susto era Fernanda uma amiga da escola.
Ela perguntou:
- O que aconteceu que você está triste João, cadê o Mário? Vocês não se desgrudam, estão sempre juntos, vai me contar por que você está assim?
Olha Fernanda vou lhe contar só para me desabafar, mas vê se não espalha, a mãe do Mário me chamou na casa dela para conversar um assunto muito sério, estou chocado até agora.
- O que é João, você está me deixando aflita.
- Olha Fernanda o Mario é gay.
- Não acredito João, você não sabia, ele é seu melhor amigo.
- Não eu não sabia Fernanda a mãe dele disse que ele também faz programas noturnos, posso me desabafar com você?
- Mário e eu desde pequeno andávamos juntos, íamos aos bailes de escola, paquerávamos as meninas no salão, tomávamos banho de lagoa juntos, os dois pelados. Você já viu aquele filme "Alagoa azul", os dois pelados dentro da água nadando? Jogávamos bola suor com suor, você tinha que ver, por que ele fez isso comigo Fernanda?
- João se eu fizer uma pergunta você não vai ficar com raiva de mim? João você também é gay? Você não pára de falar do Mário, parece que você está com raiva ou ciúmes.
- Fernanda não sou gay, estou nervoso porque o Mário sabia que nos dois somos amigos, e ele está indo para cama com outros, ele teria que ter ido comigo primeiro, porque sou seu melhor amigo.


Paulo Pereira
paulo.pereira13@isbt.com.br

Everaldo Ferreira

Diretamente de Suzano, fundão...
Penso que seria interessante as editoras brasileiras investir em novos talentos literários, ou seja em novos escritores, porque temos que mudar essa realidade, que escritor bom é escritor que já morreu.É muito difícil não ter patrocínio, apoio ou incentivo, e a maioria dos novos escritores desiste na metade do caminho, então que essa mensagem possa fazer refletir, tem muita gente nova no mercado, em busca de uma oportunidade, esperamos que as editoras acreditem mais nos novos talentos. Que assim seja... Afinal ninguém quer morrer pra depois ser reconhecido, se tiver que ser reconhecido um dia, que seja em vida, mas não somente para buscar a fama e o poder, mas sim para expressar ao mundo, sentimentos verdadeiros, vividos e sentidos na pele. Eu só tenho gasto, trabalho, e dedicação, retorno até hoje não conheci, eu deveria desistir, mas não existe glória em caminhos de flores.
Everaldo Ferreira

24 janeiro, 2007

Evento da Bagatelas


O escritor João Antônio completaria 70 anos neste sábado, dia 27, se estivesse vivo, e com certeza não deixaria de comemorar a data com bastante literatura, samba e cerveja, tudo que ele mais gostava! Para a festa não ficar só na vontade o Acervo João Antônio da Unesp de Assis/SP e a Bagatelas! vão fazer um bate-papo em homenagem ao velhaco eternizado pelo livro Malagueta, Perus e Bacanaço. Já estão confirmados a produtora Karina Francis - diretora de "A jogo ou a passeio?", vídeo-reportagem sobre o mundo da sinuca tão freqüentado pelo bacanudo - os escritores Marcelino Freire - ganhador do "Jabuti 2006" com seu "Contos Negreiros" - João Paulo Cuenca - autor de "Corpo Presente" - e Jacy de Castro - leitora e amiga do autor - que levará o saboroso cuscuz paulista que o bacanudo devorava nos finais de semana em sua casa, durante a Copa de 94. O samba fica por conta do projeto cultural Nó de Gravata, que tocará músicas de Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Cartola, sambistas que o escritor tanto saudou em seus textos. Raphael Vidal, escritor e editor da Bagatelas! conta também que a farra será gravada para um programa da TXT TV, televisão literária feita por escritores e livreiros que será inaugurada em breve na internet. O evento começa às 14h do sábado, 27/01, no Bar Cevada, na Serzedelo Correia, 27A, em Copacabana, onde João Antônio morou durante anos.
Flávio Corrêa de Mello
Bagatelas - Coordenador Editorial.

Trajetória Literária

Sacolinha, Loyola Brandão e Walmir Pinto (Secretário de Cultura de Suzano)
No auditório do Centro Cultural de Suzano, no dia em que o escritor Ignácio Loyola participou do projeto Trajetória Literária.

23 janeiro, 2007


Não deu!
Rejane Barros

Um instante tão feliz
É preciso bem cuidar
Tudo acaba tudo passa,
Se você não sabe amar!

Eu queria ter você
Mas você não quer a mim
Não importa isso passa...
Vou atrás de um querubim!

Não o culpo anjo meu...
A felicidade morre cedo
Não esqueça o que passou
Este é o meu desejo!


Rejane Barros é poetisa e
faz parte da Associação Literatura no Brasil.

Sto André

Alpharrabio Livraria e Editora
Rua Dr. Eduardo Monteiro, 151 – Santo André
Tel.: (11) 4438.4358 – Fax: (11) 4992.5225
www.alpharrabio.com.br
http://blog.alpharrabio.com.br
alpharrabio@alpharrabio.com.br


Olá, caro amigo(a),
O ano nem bem começou, muita gente ainda está gozando merecidas férias, mas, desde o dia 8 último, nós já estamos trabalhando a pleno vapor, arquitetando planos para nossas atividades neste 2007, ano em que a Alpharrabio Livraria e Editora completa 15 anos.
Já podemos adiantar que o aniversário será comemorado festivamente no dia 24 de fevereiro, um sábado, com a apresentação da Orquestra de Violeiros de Mauá. Antes, no dia 15 de fevereiro, teremos um recital de violão, com o violonista Atilio Rocha. As demais atividades serão divulgadas brevemente.

Enquanto a programação completa não chega, gostaria de convidá-lo(a) a fazer uma visita virtual ao nosso blog que está em ritmo de balanço. (
http://blog.alpharrabio.com.br/2006/12/31/2006-um-inevitavel-balanco/)

Deixe seus comentários, se puder, mas, sobretudo, aguardamos sua visita física, pois para as artes do encontro presencial foi feito o Alpharrabio e toda sua programação. O Café está com novidades e o acervo idem.

E lembre-se, tanto a programação quanto sugestões de livros do catálogo poderão ser consultadas no nosso site:

www.alpharrabio.com.br

Aguardamos, portanto, sua visita.

Até lá.

Dalila Teles Veras e equipe
Alpharrabio Livraria e Editora

18 janeiro, 2007

CORDEL

Aventuras de um caipira
Por: Francis Gomes

Derde o tempo de menino
Sempre fui muito mofino
Magricelo bem sofrido.
Prá piorar meu dilema
Pescoço de seriema
Este era o meu apelido.
Seu moço num vou negar
Na arte de namorar
Eu era mermo esquecido.

E como num sou bonito
Por isso mermo acredito
Eu fui é muito sortudo.
Apois me casei com Rita
Uma caboca muito bonita
Que tem os beiços carnudo.
Peito grande, perna grossa
Traz meu armoço na roça
E nós se dá bem em tudo.

Rita é o peixe eu a rede
Caboca de oios verde
Minha estrela de cinema.
Presente que Deus me deu
Ela é mais arta que eu
Mas prá tudo tem esquema.
O bom é que nós se ama
E quando nós vai pra cama
Artura num é probema.

Prá nós num tem lugar certo
Esteja longe ou perto
Quarquer lugar é lugar.
A hora também num conta
É quando nós se levanta
É quando nós vai deitar.
E se a vontade engrossa
As vez até lá na roça
Quando eu vou armonçar.

Um sol quente da mulesta
Suor correndo na testa
Sentindo câimbra no braço.
Sem ter nada na barriga
As tripa pegando briga
De tanta fome que eu passo.
Mas quando eu fico espiando
Que vejo Rita chegando
Acaba todo cansaço.

Balançando a cabeleira
Andando toda faceira
Com um sorriso tinhoso,
Só mermo prá provocar
Ela começa a falar:
- o armoço ta gostoso.
Como quem quer um chamego
Rita diz: - vem cá meu nego.
Eu fico todo manhoso.

E quando nós se aproxima
Nontonce eu parto prá cima
Como um cachorro pro osso.
É minha nega prá lá
É meu neguinho prá cá
Ela me morde o pescoço.
Nas moitas de marmeleiro
Debaixo dos imbuzeiro
Esqueço até o armoço.

Seu moço nós se abufela
Ela com eu, eu com ela
E sai rolando no chão.
É o suor escorrendo
E Rita fica dizendo:
-neguinho, faz isso não.
Mas ela que me aguarde
Se eu paro ela diz: covarde
Tu vai me deixar na mão?

Ligeiro eu tiro de tiro de Rita
O seu vestido de chita
E nós esquenta igual brasa.
A nossa doideira é tanta
Que os Passarim se levanta
Começa a bater as asa.
Dispois nós banha no poço
Aí eu como o armoço
E Rita vorta prá casa.

Dispois que ela vai sembora
Eu fico contando as hora
Doidim pro tempo passar,
Se eu falar ninguém cridita
É só sordade de Rita
Vontade de namorar.
Porque dispois que eu janto
O fogo de Rita é tanto
Que nós já vai vadiar.

As vez o povo critica
Argum até faz futrica
Tudo inveja de vizim.
Mas eu agradeço a Deus
Gosto de Rita ela de eu
Tudo de Rita é prá mim.
Tudo que eu faço é prá ela
E se arguem se engraçar com ela
Pode crer que eu dou fim.

Francis Gomes
Presidente da Associação
Cultural Literatura no Brasil

Faz me rir

Pintinho
Por: Paulo Pereira

Troquei dois vasilhames e ganhei um pintinho.
Aonde eu passava todos diziam:
_ Que bonitinho.
Seja com chuva ou com sol era um pinto amigo, aonde eu ia todas as mulheres queriam pegar. Pegavam meu pinto, passavam a mão na cabeça e não queriam mais largar.
Uma senhora minha casa visitou, esqueceu a porta aberta e meu pinto escapou.
Meu pinto esta pra fora, mas a culpa não é minha. A mulherada alvoroçada já quer dar uma pegadinha. Eu disse:
_ Larga, larga, meu pinto! Larga, larga o meu pintinho! Larga o pinto para que ele não fique molinho!
Sai correndo pela rua com o pinto na mão, e a mulherada descabelada correndo em minha direção. Subo morro, desço ladeira, só escuto as mulheres gritando e até uma biba:
_ Eu só quero pegar na cabeça.
No meio desta bagunça, lembrei de uma frase que dizia:
_ O delírio de uma mulher é oito ou oitenta.
Estou correndo pela rua com o pinto na mão, paro numa esquina, para poder descansar, olho lá para o morro e vejo tantas mulheres, parecia um enxame de abelhas pronto para me atacar. Olho para os quatro cantos e vejo que não tem jeito. Grito:
_ Por favor, segurem, mas não machuquem o pobre bichinho.
Uma senhora sai correndo no meio daquela multidão, chega pertinho com os olhos brilhando, pega na cabeça e começa a beijar.
Ouço um grito, quando olho era a biba dizendo:
_ Hoje me rasgo toda, escultem meu rugido; miau, miau sou um leãozinho. Rapais, rapais seu pinto é adorado por toda a mulherada, seja pobre, granfina, da madame ou da empregada todos querem ver e apalpar, mas tem daquela assanhadas que a cabeça quer beijar. Uma pega, outra aperta, outra morde, outra belisca.
Eu grito:
_ Por favor, largue o meu pinto, porque ele está ficando molinho.
Uma senhora de tanto apertar o pinto, a cabeça começou a inchar, não resistindo tanto aperto, sobe e desce sua cabeça, explode dando seu ultimo suspiro, o melado desse.
Para tristeza das mulheres.

Paulo Pereira

LUB

Acessem o site da Liga Urbana de Basquete

17 janeiro, 2007

SONETO ESPALHADO
Glauco Mattoso

Procura-se um pé chato, largo e grande,
que tenha bem mais curto o "polegar"
que o dedo "indicador"! Nesse invulgar
formato, algo esculpido alguém me mande!

Você, que as dicas pela rede expande,
me ajude este pedido a divulgar!
De macho ou fêmea, tanto faz, se andar
descalço ou com pesadas botas ande!

Já fiz, quando enxergava, coleção
de moldes no papel, porém agora
que estou no escuro, vejo com a mão!

Talvez algum ex-voto numa tora
lavrado tenha as formas que darão
noção táctil do pé que um cego adora!

Respostas (só texto, sem anexo) para: glaucomattoso@uol.com.br
MANIFESTO DO POETA MARCELLO RICARDO ALMEIDA

Há quem impeça, em pleno século XXI, uma biblioteca em cada município alagoano? O sertão alagoano, de onde eu venho, continua sedento por livros, sedento também o litoral, aonde eu fui. Não se fala em cada bairro – o que seria razoável -, fala-se em cada um dos municípios. Entregue as chaves dessa casa do saber às mãos de um grêmio literário, de uma agremiação estudantil, de um padre, de um grupo de teatro, um pastor, uma boa alma. Estimular intelectuais alagoanos a manterem ininterruptos contatos com essas sementes de livros (bibliotecas espalhadas em Alagoas. Vamos desenterrar os talentos. Fazerem os líderes políticos e religiosos acreditarem que o Paraíso é um lugar cheio de bibliotecas), oxigenando-as com ilustres visitas de alagoanos dramaturgos, poetas, contistas, ensaístas, roteiristas, cronistas, juristas, romancistas. E Alagoas passe a ter a lembrança desses intelectuais que honrariam quaisquer lugares do mundo; e que eles sejam modelos em lugar da violência e do analfabetismo.
Uma biblioteca em cada município. Nas linhas do poeta de Palmares: “As minhas Alagoas são outras”. As minhas Alagoas também são outras. Os escritores alagoanos são muitos, muitos intelectuais que honrariam quaisquer lugares do mundo; esta luz continua embaixo da mesa. Tenho insistido em minhas palestras, criação de escolas de escritores, encontros, simpósios, festivais de poesia, concursos literários e premiações para que esta luz seja levada para cima da mesa. A imagem de Alagoas não pode continuar sendo as faces da violência (a tragédia) e do analfabetismo (a comédia). Todos nós temos uma grande dívida com Alagoas. Para solvê-las, muitas caixas de livros ainda terão que ir de mãos em mãos. Uma academia de letras é uma instituição de grande responsabilidade social; a imortalidade de seus acadêmicos não representa um tácito contrato com Deus para imortalizar os intelectuais em suas cadeiras perpétuas. O pai de Capitu, Machado, co-fundador da primeira de nossas academias de letras, quis moralizar o escritor; as academias de letras depois de Machado de Assis se justificam se concorrer para moralizar a sociedade.
A imagem de Alagoas não pode continuar sendo as faces da violência (a tragédia) e do analfabetismo (a comédia). O que atrai? Cabeças de bandoleiros nas portas de igrejas em latas de querosene? O que atrai? A vampirização dos noticiários? O que atrai? Ninguém em Alagoas publica mais um livro? Ninguém mais estréia um filme, uma peça de teatro? O que atrai? Ninguém mais inaugura uma exposição? O que atrai? Por que nunca mais se festejou a construção de uma outra universidade federal? O que atrai? Não se inaugura mais um museu? Aonde anda a multiplicação do número de boas escolas públicas? Continuará utópica a democratização do saber? A imagem de Alagoas não pode continuar sendo as velhas faces da violência (a tragédia) e do analfabetismo (a comédia). Estamos no século XXI. O século da erradicação da miséria humana. Os nômades no deserto africano não acreditavam no fim da escravidão, mas a escravidão chegou ao fim até mesmo àquelas caravanas de camelos e homens antigos que ainda hoje caminham no Tenerê como fizeram seus antepassados há centenas de anos.
O livro publicado em Recife, Maceió, Aracaju consegue atravessar a ponte? Quem conhece quem, se atravessar à ponte? Não se sabe. O livro publicado em Santana do Ipanema ou em Pão de Açúcar, dificilmente será conhecido em Maceió. Se o livro nasce em Delmiro Gouveia ou em Feliz Deserto, como consegue atravessar a ponte se continua “inédito”? Como chegar o livro às mãos do povo sem bibliotecas? Quem conhece quem, se atravessar à ponte? Não se sabe. Ao menos consegue atravessar a rua? Não, ainda assim; o vizinho da frente desconhece a escritura do vizinho de porta. E a literatura de quem escreve consegue atravessar a calçada? Há quem não tenha certeza. Às vezes, a boca está cheia de um Ginsberg ou de outros intelectuais estrangeiros, ídolos de pano que nunca ouviram falar em Maceió ou em Santana do Ipanema, v.g., nem na Serra do Almeida, ou da Maravilha e do Poço onde muito se falou na existência de um cemitério de elefantes. Mas os adoradores de Caramuru salivam ao pronunciar Shakespeare, pronunciar Joyce, pronunciar Kafka, pronunciar Brecht, pronunciar Elliot, cumming, Rimbaud, Whitman; e dizem muitas partes de seus livros numa decoreba típica de quem sofre do Complexo de Caramuru. Eles elogiam Fausto, de Goethe, mas se enojam dos poetas de cordel. Será que escritores de lá têm os nomes dos escritores de cá na ponta da língua? Quantos, aqui mesmo, conhecem quantos dentro das páginas de Alagoas? Alagoas estuda a Literatura Alagoana desde o ensino fundamental ao universitário?
Quem imortaliza os acadêmicos de uma academia de letras? Seus livros indo de mãos em mãos. O sertão alagoano continua sedento por livros, sedento o litoral. Todas essas academias de letras têm o compromisso em levar os livros de mãos em mãos. O que impede, em pleno século XXI, uma biblioteca em cada município alagoano? Qual o lugar que não faria bom proveito do legado de Graciliano Ramos? Quebrangulo. Qual o lugar que não faria bom proveito do legado de Brenno Accioly? Santana do Ipanema. Os exemplos se vão a progressões geométricas. Existem verbas municipais, estaduais e federais para a criação de museus, escolas e afins; investimentos da iniciativa privada existem. Mediante projeto, cada município, com ou sem inesquecíveis intelectuais que honrariam quaisquer lugares do mundo, vai sonhar; e, aos poucos, as duas faces (tragédia e comédia) violência/analfabetismo não mais irão amedrontar as ruas de Maceió. E cada município fará o seu caminho caminhando.
É correto afirmar que muitos livros são espécies de clarões para quem ler ou escuta falar a respeito deles. Quem planta um livro, quem acende esta luz, o primeiro a ser beneficiado é o agricultor, o primeiro a ser iluminado é quem acende a luz. Algumas crianças descobrem a existência dos livros em A Cachoeira de Paulo Afonso, outras em Grande Sertão: Veredas, ou ainda em Vidas Secas, ou quem sabe em João Urso, ou em Infância. Infância de cada um é cheia de surpresas e cabe, desde ontem, fazer com que essas surpresas (habitantes das bibliotecas) sejam as melhores possíveis.
Marcello Ricardo Almeida

15 janeiro, 2007

Reunião L.B

Nesta terça, às 17h30, haverá a primeira reunião de 2007 da Associação Cultural Literatura no Brasil. Todos estão convidados. Será no Centro Cultural de Suzano, e a pauta principal será o encontro de planejamento do dia 21 de janeiro.
Encontro de planejamento 2007
Vai acontecer no dia 21/01 das 09h às 17h, no Casarão das Artes, em Suzano. Durante todo o dia haverá discussões e encaminhamentos dos projetos e atividades de 2007.
Programação
09h Café
10h Planejamento
15h Churrasco

Fim de férias!

SARAU DA COOPERIFA ESTÁ DE VOLTA
Quarta feita tem o primeiro sarau do ano. Para começar com força total vamos presentar a todos com uma apresentação Lítero-musical com G O G - direto de Brasília, para incendiar de vez este ano que inicia. A seguir, os poetas da casa irão tomar os microfones, para que oficialmente - sob a benção da comunidade -, inicie o sarau da Cooperifa no Bar do Zé Batidão.
E como eu disse no texto anterior: "EM 2007 VAI SER PIOR... PIOR PARA QUEM ESTIVER NO NOSSO CAMINHO".
Coração em chamas e cheio de saudade,
Sérgio Vaz
SARAU DA COOPERIFA
20hs30 - Intervenção lítero-musical com G O G (direto de Brasília)
21hs - Sarau da Cooperifa
Local: Bar do Zé Batidão - Piraporinha - S.P

12 janeiro, 2007

Próximo evento!

O AUTOR NA PRAÇA recebe os jornalistas José Hamilton Ribeiro & Ricardo Kotscho

Os próximos convidados do projeto O Autor na Praça são os jornalistas José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho. Hamilton Ribeiro, único repórter brasileiro a receber sete prêmios ESSO, além de cobrir a Guerra do Vietnã, pela revista Realidade. Hamilton Ribeiro autografará seu livro mais recente O Repórter do século e também Tropeiros - Diário de uma Marcha e Música Caipira. Ricardo Kotscho, que faz a apresentação do livro de O Repórter do Século, autografará seu livro mais recente Do Golpe ao Planalto - Uma Vida de Repórter e outros títulos de sua autoria. Após a tarde de autógrafos no Espaço Plínio Marcos, acontecerá no Espaço Alberico Rodrigues, às 19h, uma apresentação musical do cantador de Alto Belo Téo Azevedo, mostrando algumas modas de viola e exibição de uma entrevista exclusiva em vídeo com José Hamilton Ribeiro - sobre a revista Realidade, concedida à jornalista Cris Campos em 2001. O cartunista Júnior Lopes participa do evento realizando caricaturas.

Serviço:

O Autor na Praça com os jornalistas José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho
Dia 03 de fevereiro de 2007, sábado, das 14h às 18h
Espaço Plínio Marcos - Tenda na Feira de Artes da Praça Benedito Calixto - Pinheiros - SP

Informações:
Edson Lima
Tel. 3085 1502 / 9586 5577 - oanp@uol.com.br
Apresentação Musical e exibição do vídeo da entrevista com José Hamilton Ribeiro, às 19h no Teatro do Espaço Cultural Alberico Rodrigues - Praça Benedito Calixto, 159
Tels.: 3064 3920 e 3064 9737 -
www.espacoalberico.com.br

Os eventos têm Entrada Franca
Realização: Edson Lima e Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto
Parceria: Jornal da Praça -
http://plazajornal.blogspot.com
Apoio: Sindicato dos jornalistas de São Paulo -
www.sjsp.org.br

Sacolinha!

85 Letras e um Disparo (contos)
Graduado em Marginalidade (romance)


Crônica da Semana

Arma
Marco Pezão


Peguei a palavra ARMA e a cortei em vogais. Depois, juntando as letras, em nova ordem busquei outros significados...
Arma, nos dias de violência idos e vividos, em qualquer ocasião, é terrível substantivo. Concreto quanto ao estrago que causa. Não importa se de leve porte.
Quem passou por situação de ter uma arma de fogo apontada para si, em circunstância de assalto ou diferente agressão, sabe o temor da bala.
E quem vive em região de conflito, o que sofre por ser alvo aleatório de arma pesada na linha do combate?
Desnecessário é nomear os membros desta ampla família. Mas que seja: pedra, canivete, faca - arma branca – pau, porrete, chicote, canhão, bactérias, e tantas se fazem válidas dependendo o uso e caso. Uma caneta. A mão que escreve. A palavra que denuncia, do mesmo modo, oprime.
E, assim pensando, tudo pode ser arma. Do sentimento atroz à bomba nuclear, o que destrói é arma.
Arma. Das letras que ela contém forma-se de seu início: AR. Esse que respiramos. Ele que significa o princípio básico da existência humana. E, nessa averiguação, é o contraponto do efeito mortal acima sugerido.
O ar fica mais leve com tua presença, dizem os enamorados. Você deu o ar da graça, comenta o lisonjeiro. Você está com ar de quem não quer nada, replica o decepcionado.
Ar, ar, ar, eu quero ar! Liberdade, dirá o prisioneiro...
E a idéia segue em nova praia. Dividida e acrescida. MAR! O mar é minha alforria, observa o marujo no cais.
As ondas são servis, amada! Aos teus pés o mar termina...
Aguarde-me, eu sou a maré que avança e inunda. Sou a RAMA verdejante que o teu corpo há de fazer florir...
Decomposta a palavra absorvo o dissabor. E não importando a forma transformo o conteúdo. Ar, mar e rama são derivações de igual tronco.
Mais uma cabe. A mais importante, talvez. O verbo radiante: AMAR! AMAR! AMAR!
Eis o projétil. Eis o vínculo com a vida!
Amar é a arma de meu constante disparo!

11 janeiro, 2007

Revista Palmares

Essa aí é a revista Palmares n° 02, hip hop, literatura e cultura negra em geral. Participações: Elizandra, Nelson Maka, Sacolinha, Sérgio Vaz, e muito mais. Procure a sua.

10 janeiro, 2007

Rejane Barros

Uma história em canção

Passarinho que canta longe,
Vem cantar a minha dor
A canção é muito triste,
Pois reflete quem eu sou;

A história foi assim,
Era só eu e você!
Mas o destino decretou
Que eu devia te esquecer!

O nosso amor ficou aqui,
Em meu peito está cravado
Não consigo entender
Que você virou passado

Fui feliz naquele instante,
No segundo que te encontrei
Pois havia encontrado,
O alguém que sempre amei!

Você dentro dum caixão,
Não consigo aceitar
Até hoje não entendo,
Que perdi você pro mar

Uma onda traiçoeira,
Que roubou você de mim
E levou o meu tesouro,
Que é você meu querubim!

E você partiu primeiro,
Com a certeza que parto atrás
Prometi isto às estrelas:
“Sem você não vivo mais!”.

Rejane da Silva Barros

09 janeiro, 2007

Novo Conto

Quem tem medo de cagar não come!
Texto publicado originalmente no site Rap Nacional
(Por: Sacolinha)

Já saí da casa dela chateado. Estava lá desde sexta-feira á noite, pra sair no domingo de tarde sem nem uma rapidinha.
Logo eu que estava acostumado.
Ela sempre dava um jeito, ou era no terraço ou na sala, enquanto seus pais estavam assistindo tv no quarto. Mas nesse fim de semana não deu. A filha da mãe disse que estávamos arriscando demais.
- Tudo bem.
Tudo bem pra ela que tem alto-controle, que é mais fácil de segurar.
Mas mal eu sabia que tudo estava apenas começando. Minha namorada me levou até o ponto de ônibus, que o meu carro estava no mecânico. Evitei beijos mais ousados para não piorar a situação. Embarquei e fui sentar no último banco. Adoro ter uma boa visão atrás de todo mundo, só não gosto que tenham boa visão atrás de mim.
O calor estava insuportável, e o suor já começava a descer pelo rosto. Não via a hora de descer daquele veículo barulhento.
Desembarquei com aquela sensação de estar esquecendo alguma coisa, mas nem dei atenção. Corri para pegar o trem.
Passando na catraca da CPTM a danada apita:
- Ah, vai se lascar.
A funcionária veio:
- Calma moço, tenha paciência.
- Paciência nada, isso acontece sempre, já sou pós-graduado em ser barrado nessas catracas. Além de travar, ainda fica apitando.
Enquanto ela analisava o meu bilhete, o trem que eu iria pegar encostou na plataforma.
- Senhora, me desculpe, mas eu não posso perder esse não.
Pulei a catraca e subi as escadas quase tropeçando. Quando passava por alguém, esse olhava assustado achando que eu estava fugindo.
Quando ia descendo a última escada para a plataforma, o trem apitou sinalizando o fechamento das portas. Gritei para alguma alma boa:
- Seguuuuuuuuuuuuuuuuuuuura. Segura a porta.
Ninguém fez o favor. Ia tentar abrir uma porta no braço, mas o trem partiu.
Praguejei pra Deus e o mundo. Xinguei até a Xuxa, mesmo sabendo que ela não tinha absolutamente nada a ver com aquilo.
Sentei chutando a merda do banco que estava á minha frente, como se ele estivesse rindo da minha cara.
E de repente chega um segurança:
- Pode voltar e pagar a passagem.
- Ah, vai se fo...
Segurei, pensei e resolvi não arrumar encrenca.
Voltei na catraca, fui na bilheteria, comprei uma passagem, passei e fui até a funcionária que havia ficado com o bilhete que tinha travado.
- Por favor, me devolve o bilhete, ele não passou aqui, mas pode passar em outra estação.
Novamente na plataforma calculei o horário do próximo trem. O intervalo durante a semana era de quinze em quinze minutos, isso quando obedeciam. E aos domingos e feriados era de trinta em trinta.
Já iam dar seis horas da noite. Peguei um livro na mochila e tentei me concentrar na leitura, coisa que foi difícil. Tinha tanta coisa pra fazer; estudar para a prova de segunda, fazer trabalho de teoria literária, que por mais que você goste acaba enchendo o saco. Tenho de responder umas cartas, terminar de ler um livro e dar a minha opinião aos editores, tomar banho, jantar, assistir um documentário e muitas outras banalidades que não vale a pena citar aqui. Só não ficaria sem me masturbar aquela noite. Isso não.
O trem chegou e eu não consegui ler nem duas páginas.
Entrei e me acomodei ao lado de uma moça que segurava a sua criança. Só sentei ali porque não havia outro lugar, pois morro de medo de criança em transporte coletivo nos fins de semana. Elas vivem de barriga cheia de lanches do passeio e um transporte como o trem em movimento de um lado e de outro só contribui para que elas coloquem tudo pra fora. Ai de quem estiver perto.
Mas a criança estava quietinha e não vomitou. Só me fez lembrar de uma coisa; ela estava com um celular de brinquedo nas mãos, que eu não via a hora de acabar logo a pilha, e que me fez levar as minhas mãos aos bolsos da calça.
- Putaquelamerda.
Sussurrei baixinho, é claro.
Então era isso que estava me deixando com a sensação de esquecimento.
Fiquei desinquieto a ponto da moça ao meu lado se incomodar. Preferi ficar sossegado, já estava dando tudo errado mesmo. Na estação Barra Funda eu compro um cartão e ligo para o meu número pra saber quem achou e onde eu perdi.
- E se ficou na casa da minha namorada?
Ai, ai, ai. Vai que liga alguma mina me procurando. Do jeito que a Vânia é ciumenta é capaz dela chamar a outra de vadia e ainda jogar o celular no chão.
- Tô frito.
O trem chegou na estação Barra Funda e eu corri para comprar um cartão, que aliás, tá caro pra cacete. Fui até um orelhão e liguei para o número umas cinco vezes. Ninguém atendeu. Liguei para a casa da minha namorada e perguntei se não havia esquecido por lá. Também não.
Bom, como já estava ficando tarde, resolvi continuar minha viagem, e a Vânia ficou de ligar ao meu celular para ver se alguém atendia.
Embarquei noutro trem até a estação Luz e lá baldeei para o trem que me deixaria em guaianases para a última baldeação. Aja trem.
Dividi o banco com uma mulher que falava no celular e pensei: “Bom, daqui á pouco ela desliga, aí dá pra mim ler”.
O vagão começou a lotar e a composição nada de sair. De repente sobe um cheiro de mijo de arder as narinas e, como eu havia acabado de sentar, a mulher começou a fungar e olhar pra mim. Ainda falou no celular:
- Nossa menina, entrou um pessoal aqui que tá com um fedor de mijo...
Só balancei a cabeça negativamente, na certa a filha da puta estava achando que o mal cheiro vinha de mim.
O trem partiu. Abri o livro, suspirei e comecei a ler. Aprendi a me concentrar na leitura em locais públicos, lia em qualquer lugar, talvez até em salão de baile, mas a conversa da mulher no celular estava tão mesquinha e sem conteúdo que acabei me irritando. E ela ainda olhava pra mim fungando aquele nariz cheio de pêlo.
Fechei o livro e comecei a prestar mais atenção naquela conversa fiada, pra ver se dava para tirar proveito dela, talvez escrevendo algum texto mais tarde.
E, acreditem, a mulher foi descer na estação de Itaquera, e ainda saiu falando no celular. Mais de cinqüenta minutos falando sem parar. Provavelmente ligou á cobrar para a amiga, ou as duas estavam aproveitando a promoção de fim de semana da operadora. Só rindo.
Na mesma estação embarcou um senhor que já estava pra lá de “marraquechi”.
- Eita, o véio tá bebim, bebim. - Ouvi alguém dizer.
Então desisti do livro logo de uma vez e guardei na mochila.
O senhor que estava com uma latinha de cerveja na mão, começou seu espetáculo cutucando dois jovens que conversavam encostados á porta.
De início os dois deram atenção, mas depois que o velho começou a encheção de saco eles deram um chega pra lá. O bêbado então gritou:
- Ôpa, quem tem medo de cagar não come, quem tem medo de cagar não come.
E insistiu na conversa com os jovens. Falava tudo enrolado, ninguém entendia nada. A não ser a frase que ele soltava de dois em dois minutos:
- Quem tem medo de cagar não come, quem tem medo de cagar não come.
E começou a cantar. Juntava músicas antigas com novas, Tim Maia com banda Kalypso e Elis Regina com Frank Aguiar. Era um bailão danado. E eu pensando na frase que um amigo me disse certa vez: “Nóis sofre, mais nóis goza”.
O bêbado cantando, sem esperar, o maquinista dá uma freada brusca. O velho caiu, mas não largou a latinha, que espirrou cerveja nos dois jovens. Praguejaram e xingaram o bêbado de tudo quanto é nome. Os dois foram encostar em outra porta. Mas ele levantando do chão, só conseguia dizer:
- Quem tem medo de cagar não come, quem tem medo de cagar não come.
E foi para perto dos jovens novamente, cutucando-os e repetindo a frase. Os dois pareciam muito pacientes com todas as pessoas ali no vagão, ora rindo, ora pedindo um linchamento no velho.
Os dois pararam de conversar e começaram a trocar olhares, que foi se revelar na próxima estação quando abriu as portas. Eles puxaram o bêbado pra fora e derrubaram no chão. O trem partiu, deixando o velho na estação errada a resmungar:
- Quem tem medo de cagar não come, quem tem medo de cagar não come.
Chegamos em guaianases e fora a espera, o restante ocorreu normal. Desci na minha estação com a mochila pesada a castigar as minhas costas. Lembrei da palestra que dei na sexta de tarde, antes de ir para a casa da minha namorada. Levei bastante livros para vender, mas nem os organizadores da atividade compraram. Na próxima vez eu cobro a palestra.
Vi partindo o ônibus que eu iria pegar, corri. O motorista me viu acenando, mas não parou.
- Maldito desgraçado. Que você tenha uma morta lenta e dolorosa.
Sentei esbaforido numa guia de calçada. Tirei a mochila das costas e joguei no chão. Por um instante passei todo aquele fim de semana na minha mente.
“Num vendi livros, minha namorada com frescuras, os atrasos, a perda do meu celular, a louca tagarela ao meu lado me fungando, o bêbado, o motorista do ônibus me sacaneando e um monte de trabalhos em casa”.
E hoje ainda é domingo, a semana está apenas começando. Meu Deus, pra que que eu fui nascer?
Pensei em me afogar na cachaça e ser feliz igual o velho, mas as responsabilidades é que não deixam. Fui me envolver num monte de coisas. Olha aí o que dá.
Mas me contentei em sentar no ponto de ônibus, abrir o livro e aguardar o próximo transporte. Afinal de contas, quem tem medo de cagar não come.

Sacolinha!

08 janeiro, 2007

Órfão

(Francis Gomes)

Observo luzes piscando em vários lugares.
Em edifícios, em casas em árvores.
Formando figuras em diversas cores.
Verdes, azuis, vermelhas, amarelas,
Em forma de anjos, estrelas, sinos e velas.
Enquanto eu martirizo-me nos meus dissabores.

Crianças em suas casas olham para o céu...
Pedem não a Deus, mas a papai Noel,
O presente de sua ilusão.
Todavia eu, sem casa, sem lar,
Suplico, imploro, para ver se alguém me dá,
Um miséro pedaço de pão.

Quem pode, compra pernil, peru para a ceia.
Vinho, champanhe, tudo que a carne anseia.
Viaja, festeja, comemora.
E eu, sem amigos, sem família, sem ninguém,
A espera de um presente que não vem,
Sem honra vou mendigando pelo o mundo afora.

Uns compram, não porque precisam, por vaidade.
Eu, eu vendo minha dignidade,
Pelo o preço que a fome cobra.
E fazendo parte deste abandono,
Sinto-me um cão esquecido pelo o dono,
Comendo das migalhas que lhe sobra.

Todos, todos olham as luzes piscando,
Mas para mim, quem está olhando?
Eu me pergunto olhando para o céu.
Senhor, Senhor não me queira mal,
Observe, observe Senhor, é época de natal,
Mas onde está meu papai Noel?

Ah! Perdoe-me, é que às vezes eu esqueço,
Que ele não sabe meu endereço,
E por isso não pode me atender.
É que nesta angustia que me abrasa,
Eu esqueço que não tenho casa,
Nem chaminé por onde ele possa descer.

Todos, todos tem o direito de nascer,
Tem o direito de viver
Mas ninguém tem o direito de ser esquecido.
Se eu soubesse que viver era tão ruim,
Que até papai Noel se esqueceria de mim,
Eu juro, juro que não queria ter nascido.

Por que, por que, que mamãe não me abortou?
Já que ao me ter me abandonou,
Como se eu fosse a perdição de sua vida!
Porque melhor me fora não ter nascido,
Do que nascer para depois ser esquecido,
Como uma coisa que alguém deixa caída.

Mas eu nasci, nasci, e agradeço ao Senhor,
Pois eu penso , se Ele me enviou...
É porque tenho uma missão para cumprir.
É verdade para muitos nem existo,
Mesmo assim, eu agradeço a Jesus Cristo,
Pelo simples direito de existir.


Francis Gomes
tchekos@ig.com.br

04 janeiro, 2007

Crônica do Vital

Cada um com seu final de ano!
Renato Vital
Invadem o morro, são recebidos a bala, troca de tiro que não pára. Desnorteada a polícia não sabe se avança, se fica onde está ou se vai embora. Fora dolocal de combate, a elite se alegra com o final deano, presentes, perus, chesters, comidas, champanhes e tudo de mais luxuoso. No cantinho solitário a empregada observa tudo ela é o submundo, ela é o periférico, ela é a serviçal, ela é a mão de obra, ela é o nada. Essa mesma empregada pensa em seus dois filhos que moram no local da guerra urbana, um é policial o outro preferiu ser traficante. Mas o amor pelos dois é o mesmo.
A imprensa mete o pau, as rádios de am condenam, os jornais pedem pena de morte, os políticos de férias, não querem nem saber de trabalho. O novo (velho) presidente, pensando no dia de sua posse, seusmercenas puxa-saco, pensando em sair bem na foto, em conseguir cargos no legislativo, conseguir casas na praia, no ano novo que vem chegando, sítios, pousadas, e tudo mais em que não envolva uma raça chamada povo. O Bush pensando qual país atacar em 2007, pensando qual tipo de mãe ele vai fazer chorar mais uma vez, qual rio de sangue vai boiar corpos, qual histórinha vai contar para o alienados. O Saddam Russein em contra-ponto, pensando qual dia será o da sua morte, ou melhor qual o dia de presentear o George W. Bush.Os iraquianos não planejam futuros, nem sequer sabemse terão suas vidas amanhã, nem sequer sabem se um diaterão sua soberania de volta. A Palestina chora. Olíbano chora. O Irã se prepara para uma possívelguerra. As praias estão lotadas, algumas cidades nordestinas, antes do ano novo sequer visitadas, também. O alunos vibram com as férias. Pobres fazendosuas últimas compras para o Reveillon. Ricos fazendomais compras para o Reveillon. A fábricas de fogos de artíficio lucrando com o Reveillon.
O escritores periféricos, mais uma vez teimando emsonhar, o Sacolinha teimando em sonhar, o Alessandro Buzo teimando em sonhar, o Férrez, Dinha, Sérgio Vaz etc, todos ainda sonham.
Eu além de sonhar, penso nos dias que virão, não quero saber de moeda de troca, eu quero é aquela PAZ, que um dia me fez sonhar, eu quero aquela PAZ, que todos fazem questão de não olhar, eu quero aquela paz que fizeram questão de matar. Eu quero o Hip-Hop mais unido, o povo mais unido, eu quero justiça para os feridos. Eu quero a Paz em 2007, e é isso que eu desejo pra todos os consumistas, direitistas, carniceiros e oportunistas. E principalmente Paz para os meus verdadeiros amigos.
Obrigado.

Crônica do Pezão

Entre Deus e o Diabo, a cruz política.

Marco Pezão

Quando Pelé era ministro, e a idéia dos bingos ganhou pernas para serem instalados definitivamente em solo nacional; tendo como base que parte dos lucros seriam destinados ao programa de incentivo ao esporte amador, não vi mal algum.
Pior, acreditei que seria possível.
Vieram máquinas caça níqueis e pensei: Joga quem quiser...
Ledo engano. Ledo engano.
Hoje, parado diante do vídeo, apostando que a sorte irá me sorrir, mesmo depois do halloween levar os cem reais que estavam a pouco no meu bolso, arrisquei em ato de desespero a última nota de dez e refleti: Ouro de tolo, jogo é coisa do diabo!
Tomei mais uma cerveja a fim de ludibriar o pensamento e, quem sabe, amenizar a raiva de mim comigo.
Ao lado, uma dezena de pessoas compartilha o ato de apertar o botão e ver passivamente a tela girar.
Meu instante pareceu se prolongar indefinidamente. Um riso de deboche e uma sarcástica voz, apenas eu ouvia: Idiota!
Eu via o que não via...
Tomando a forma de crescente mancha vermelha, vi vícios e a degradação se espalhando pelas ruas da paulicéia. Casas de prostituição e igrejas servindo no mesmo prato, o céu e o inferno.
Viadutos rompendo-se em fabulosos precipícios. Arco íris transformado em espirais de fogo, simultaneamente, desfigurando a rosa dos ventos. Tempos outros. Sem futuro, nem passado. E o presente sob o pinheiro enfeitado anunciando à proximidade do natal.
Havia uma varanda no alto de um prédio e nela, o finado Tancredo Neves, dizia: “Enquanto houver um brasileiro sem pão e sem trabalho, toda sinceridade será falsa”
Sentado na cadeira de balanço a olhar estrelas em dia claro, eu plagiava o poema de Mario de Andrade e oferecia taxativamente a silenciosa multidão:
“Eu insulto o político! O político-níquel. O político-político! A digestão bem feita de São Paulo! O homem-curva! O homem-nádegas! O homem que sendo europeu, brasileiro, americano, é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias! Os barões lampeões! Os condes Joões! Os duques zurros! Que vivem dentro de muros sem pulos e gemem sangues de alguns reais fracos. Eu insulto o político funesto! O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições! Fora os que algarismam os amanhãs!
Morte ao salário abusivo! Morte ao salário mínimo. Morte às adiposidades cerebrais! Morte ao político-mensal! Morte ao político-burguês! Morte ao político-operário. Ao político-cinema! Ao político-passagem, aquele que nunca sabe de nada.
Come! Come-te a ti mesmo. Oh! Gelatina pasma! Oh! Purée de batatas morais! Oh! Cabelos nas ventas! Oh! Carecas!
Ódio aos temperamentos regulares! Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia! Ódio à soma! Ódio aos amigos! As mentiras e invejas. Ódio aos secos e molhados! Ódio aos acertos e enganos! Ódio aos bancos que faturam trilhões. Ódio às invasões via Internet. Ódio às guerras e a paz falsificada... A cultura. A cultura massificante. Ódio.
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Morte ao político de giolhos, cheirando religião e que não crê no Divino! Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico! Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom político!”
Instintivamente com uma dedada travei a jogada. Uma trinca de capetas apareceu na linha horizontal. O suor frio que corria a testa estancou. Fiz as contas. Noventa: nove fora, nada. Perdi dez, estou no lucro!
Já era manhã, dia seguinte, e, retornando da padaria onde fui tomar café, só aí caí em mim. Um sujeito ensandecido chutava a caixa plástica de recolhimento de lixo presa a um poste.
O reconheci. Era o cara que jogava na máquina vizinha. Totalmente alcoolizado praguejava os mais terríveis impropérios. Não foi difícil imaginar o tamanho do seu prejuízo.
Entre Deus e o diabo, a cruz política. Esta que carrego. Onde é que eu vou descarregar a minha ira?
Mas, meu Jesus Cristinho, pela fé que me resta, só depende de mim, eu o sei, porém, por via das dúvidas, fazei que eu renasça outro...
É ano novo, e, então, a velha história recomeça...

Marco Pezão

02 janeiro, 2007

Meu testemunho!

Crônica de um jovem salvo pela literatura!

Sou quem sou, graças aos livros, se não fossem eles
eu estaria à sete palmos abaixo da terra.


Nasci numa família onde a leitura vinha em último plano. O máximo que acontecia era um dos meus tios que aos domingos durante o café da manhã abria um jornal, o extinto Diário Popular, e ficava ali a folhear durante horas. Mas isso não durou muito, pois ele acabou ficando desempregado e o primeiro corte de gasto foi o jornal.
Um outro tio que hoje é padre, fora durante alguns anos, coordenador da sala onde estudava e muito amigo dos professores e diretores. Sendo assim, ganhava muitos livros. Às vezes chegava em casa com uma caixa fechada de livros novos. E eu nem aí com nada. Só queria mesmo era saber de empinar pipa, jogar bolinha de gude, rodar pião, brincar, brincar e brincar. Lembro que o primeiro livro ao qual fui obrigado a ler (e não li) foi indicado pela professora de literatura quando eu estava na quinta série. Ela passou o livro no início do bimestre e no fim dele iria dar uma prova. O tempo foi passando e nada de eu ler o livro. Até que num domingo, que antecedia a prova, eu resolvi pegar no livro, antes, porém, havia perdido a pipa que empinava. Então lá fui eu, naquela tarde calorosa, onde o céu azul era completado pelas pipas e pelos pássaros que voavam no ritmo do vento. Peguei o livro, observei a capa, vi a página de rosto, li a primeira página, passei para a página do meio, e... Olhei para um lado e para o outro, fui até a página final, li e fechei o livro satisfeito.
- Bom, dá pra tirar metade da nota. – Pensei sorridente.
No dia seguinte a professora mal deu bom dia e tome-lhe prova.
Resultado: não consegui responder nenhuma pergunta.
Com isso, eu cheguei a conclusão de que quando se faz algo que é obrigatório, não rende e não se produz nada.
Em 1998 mudamos de Itaquera para Suzano e mesmo assim continuei trabalhando como cobrador de lotação onde eu morava, e pra isso pegava os trens da CPTM às quatro da manhã. Só que três anos depois, chegou um momento que eu não agüentava mais ficar olhando para cara das pessoas dentro do vagão, e não conseguia cochilar. Precisava fazer alguma coisa para passar o tempo, aquilo ali estava ficando um marasmo dos diabos; as pessoas quando não estavam dormindo, ou estavam jogando baralho (e eu até hoje não sei jogar, a não ser o 21 que, muitos conhecem pelo nome de burrinho), ou fofocando ou falando das novelas. E foi então que comecei a prestar atenção n’algumas pessoas que liam livros ou riscavam revistas de passatempos.
Pedi um livro para o meu tio que tinha vários debaixo de sua cama. Ele negou dizendo que eu não iria ler, e que iria era estragar os livros.
- Deixa estar, eu dou um jeito. – Disse para mim mesmo com um riso sarcástico.
E foi quando ele deu uma saída, entrei no quarto e peguei um livro.
Comecei a ler no trem apenas para passar o tempo. Alguns dias depois eu já reclamava quando a composição chegava na estação de Itaquera.
- Poxa vida, podia ter mais uma estação pra mim ler pelo menos mais uma página...
E virei leitor de fato, lia não mais para passar o tempo e sim por prazer e busca de conhecimentos. E assim os livros foram sumindo das caixas debaixo da cama do meu tio.
Até hoje ele não sabe disso, aliás, até o momento que ler esse texto.
Sempre fui bom em redação, escrevia histórias com muita facilidade na época da escola, só não gostava de ler, ou não me ensinaram a gostar. Então comecei a colocar no papel tudo aquilo que via no meu cotidiano. Todas as cenas de injustiças sociais. Assim me sentia vingado, pois estava num momento de inquietação e conflito; meu padrasto havia acabado de desaparecer e eu virara chefe da casa, o único que tinha um emprego (informal), e com 19 anos de idade.
Precisava fazer alguma coisa para me extravasar; ou eu partia para o lado da pólvora (crime) ou para o lado do açúcar (cultura). Optei pelo açúcar, que às vezes é um pouco amargo. Então, todas as coisas que eu tinha pra dizer, colocava no papel em forma de rap ou de texto literário, e não mais me sentia pequeno. A partir daí percebi que eu poderia fazer um estrago muito maior com a literatura, o contrário se eu tivesse ido para o crime.
E assim comecei a ser mais seguro de mim mesmo, dono de minhas atitudes e dos meus atos. E toda vez que eu estou em algum local público e abro um livro, me sinto o todo poderoso, como se eu tivesse o bem mais precioso do mundo; e tenho.
O modo e as técnicas de como escrever eu aprendo lendo, o talento já veio comigo, só preciso aperfeiçoar a cada dia.
Três anos e meio depois de tudo isso, lancei o romance “Graduado em Marginalidade” meu primeiro livro. No ano seguinte (2006) lancei uma obra de contos, intitulada “85 Letras e um Disparo”. Antes, porém, participei de vários concursos literários e fui premiado em muitos deles.
Sou quem sou, graças aos livros, se não fossem eles eu estaria à sete palmos abaixo da terra.
E hoje procuro mostrar a muitas pessoas o que um livro pode fazer na vida de alguém, eles salvaram a minha e continuam salvando.
A literatura também salva. Esse é o meu testemunho.


Sacolinha, é escritor e agitador cultural.
Autor dos livros: Graduado em Marginalidade (romance)
e 85 Letras e um Disparo (contos). Ministra palestras em
escolas, presídios e faculdades. e-mail para contato:
sacolagraduado@gmail.com